31 de maio de 2019

As Pedras de Ica

À primeira vista, a pequena cidade peruana de Ica, situada no deserto de Nazca, cerca de 5 horas de ônibus de Lima, não tem nada de extraordinário a oferecer. Mas depois de uma passada no Museu Cabrera, um museu que abriga pedras entalhadas de Ica, um mundo bem diferente emerge.

Mais de 10.000 pedras de tamanhos variados preenchem o museu. Todas elas têm uma superfície lisa preta na qual figuras foram entalhadas. Levantando-as, você poderá descobrir que são muito mais pesadas do que as pedras comuns de tamanho similar.

O Dr. Javier Cabrera Darquea, que coleta e estuda as pedras há 37 anos, pegou uma pequena pedra como um presente para seu aniversário. Surpreendido pelo seu peso e design, ele começou a recolher e estudar as pedras.

Eugenia C. Cabrera, diretora do museu e filha do Dr. Cabrera, disse que seu pai realizou uma análise sobre as pedras e descobriu que elas são um tipo comum de rocha chamada andesita, revestidas por uma camada especial na superfície, o que as tornam pretas e lisas e, provavelmente, acrescentou-lhes o peso extra.

Ele especula que a camada externa tenha sido maleável originalmente, facilitando o desenho das figuras, o que se tornou difícil com o gradual enrijecimento. Até hoje o revestimento ainda está nas pedras, o que nos permite ver as figuras.

Sobre as pedras estão desenhos de figuras humanas, plantas, animais e símbolos abstratos. Os seres humanos estão usando chapéus, roupas e sapatos. Algumas pedras mostram cenas semelhantes às atuais transfusões de sangue, transplantes de órgãos, e do nascimento através de cesariana. Várias pedras mostram pessoas com um telescópio observando as constelações, planetas e cometas.

Os animais se assemelham a vacas, veados e girafas, entre outros. Alguns também se assemelham a trilobites, peixes extintos e outros animais com os quais não estamos familiarizados. Surpreendentemente, várias pedras mostram seres humanos tentando montar, matar ou sendo comidos por dinossauros.

O Dr. Dennis Swift, que estudou arqueologia na Universidade do Novo México, documentou em seu livro “Segredos das Pedras de Ica e Linhas de Nazca” evidências de que as pedras datam de tempos pré-colombianos.

Com base no conteúdo dos desenhos, alguns acreditam que as pedras são de 65 milhões de anos atrás, antes de os dinossauros serem extintos, e que havia pessoas naquela época, responsáveis pela produção das pedras.

Esta ideia não é amplamente aceita, e muitos acreditam que as pedras são falsificações feitas por pessoas modernas. Em um artigo, Swift mencionou que uma das razões pelas quais as pedras são consideradas falsificações é porque na década de 1960, os paleontólogos pensaram que os dinossauros se moviam arrastando a cauda, no entanto, as pedras representam os dinossauros sem deixar suas caudas arrastarem.

Devido aos desenhos dos dinossauros serem considerados imprecisos, os cientistas pensavam ser impossível que as pedras tivessem sido produzidas por pessoas de 65 milhões de anos atrás. No entanto, foi descoberto mais tarde que os dinossauros realmente andavam sem que suas caudas tocassem o chão. “Agora nós sabemos que os paleontólogos estavam errados. As pedras de Ica estavam certas”, escreveu Swift.

O Dr. Cabrera entendeu que as pedras de Ica são como uma biblioteca, com cada pedra sendo um livro ou uma página de um livro que documenta o passado. As coisas importantes foram desenhadas em pedras grandes, e as questões menos importantes desenhadas em pedras menores.

A Sra. Cabrera acrescenta à compreensão de seu pai: “Elas [as pessoas que fizeram as pedras] não estavam apenas transmitindo desenhos simples de certos momentos, mas sim, um tipo de linguagem baseada nos desenhos.”

Por meio de sua pesquisa, o Dr. Cabrera passou a acreditar que as folhas significavam vidas, e que conjuntos de folhas significavam civilizações. Quanto aos cocares que as pessoas estão usando nos desenhos, o Dr. Cabrera pensou que simbolizavam a inteligência, e por isso os sábios foram desenhados com cocares.

No passado, um número de pedras gravadas foram descobertas durante escavações arqueológicas e algumas pedras gravadas podem ter sido trazidas do Peru para a Espanha no século XVI.

A coleção de Cabrera floresceu, atingindo mais de 10.000 pedras na década de 1970. Cabrera publicou um livro sobre o assunto, “A Mensagem das Pedras Gravadas de Ica”, discutindo suas teorias sobre as origens e o significado das pedras.

Embora a coleção de Cabrera seja a maior, outras coleções também existem ou existiram. Estas incluem a coleção do Museu Naval de Callao, várias pedras que residem no Museu Regional de Ica e várias pedras no Museu Aeronáutico do Peru Aeronáutica.

A história toda , entretanto, possui controvérsias que devem ser colocadas.Cabrera afirmou que Basílio Uschuya, um fazendeiro local, trouxe as pedras à sua atenção depois de encontrá-las em uma caverna (Uschuya mais tarde foi preso por vender as pedras para turistas, e disse à polícia que ele mesmo as fez).  Em 1973, Uschuya afirmou que ele havia falsificado as pedras durante uma entrevista a Erich von Däniken, copiando as imagens de histórias em quadrinhos, livros e revistas, mas depois retratou-se durante uma entrevista a um jornalista alemão, dizendo que havia afirmado que eram uma farsa para evitar a prisão por venda de artefatos arqueológicos.Em 1977, durante o documentário da BBC Caminho para os Deuses, Uschuya produziu uma “autêntica” pedra de Ica com uma broca de dentista, e alegou ter produzido a pátina cozendo a pedra em esterco de vaca.

As pedras de Ica alcançaram interesse popular quando Cabrera abandonou sua carreira médica e abriu um museu para expôr vários milhares destas pedras em 1996. Nesse mesmo ano, outro documentário da BBC foi lançado com uma análise cética das pedras, e a atenção renovada ao fenômeno levou as autoridades peruanas a prender Uschuya, já que a lei peruana proíbe a venda de descobertas arqueológicas. Uschuya desmentiu sua afirmação de que as havia encontrado e admitiu que eram fraudes, dizendo:

“Fazer essas pedras é mais fácil do que cultivar a terra.” Ele também disse que não tinha feito todas as pedras. Uschuya não foi punido, e continuou a vender pedras semelhantes aos turistas como lembranças. As pedras continuaram a ser feitas e esculpidas por outros artistas, como falsificações das falsificações originais. Neil Steede, um arqueólogo, investigou o mistério e acabou por concluir que eram inscrições recentes. As rochas tinham uma pátina – causada pela idade – mas as inscrições tinham superfícies limpas, indicando que eram novas.Isso expõe certa contradição no relato de Uschuya, uma vez que, segundo ele, até mesmo a pátina encontrada nas pedras seria forjada.

Em 1998 outro estudo foi feito por Vicente Paris, concluindo que era uma fraude. Ele mostrou imagens de vestígios de tintas e abrasivos modernos, e disse que a superfície áspera das inscrições não condiz com as áreas adjacentes das pedras, que mostram o polimento natural sofrido ao longo dos séculos. Como a maioria das pedras foram encontradas em rios ou outros lugares ao ar livre, e não em túmulos antigos, a nitidez das gravuras deveria estar substancialmente comprometida se as pedras fossem de idade avançada. Paris concluiu que, embora seja impossível dizer se todas as pedras são fraudes, todas as investigações não conseguiram provar que são qualquer coisa além de modernas.

Veja nosso vídeo exclusivo sobre o tema clicando AQUI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *