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sexta-feira, agosto 19, 2022

Colunas

Tudo veio de um acaso inteligente

15 de julho de 2022

Tudo veio de um acaso inteligente

Coluna Dragão na Garagem

Marconi Gadelha

Quando meu velho amigo Cain Wolf me contatou e me ofereceu este seu espaço fiquei lisonjeado e apreensivo. Matutei sobre o que escreveria. Lógico que deveria ser alinhado ao espírito do portal. Cain se arriscou a me dar liberdade para abordar o tema que eu preferisse e, como se não bastasse, se eu quisesse, ainda poderia inaugurar uma coluna permanente. Após o susto inicial da oferta, pensei um tantinho e, em alguns minutos, decidi que a eventual coluna poderia se chamar Dragão na Garagem e abordaria temas para os quais não há unanimidade ou consenso ou, ainda, que exigem certa dose de fé para aceitação ou entendimento. Nada muito diferente, portanto, das matérias já tratadas nos canais do Detetive. Dragão na Garagem é uma referência a um dos capítulos do livro O Mundo Assombrado pelos Demônios, do astrônomo Carl Sagan, onde ele compara as crenças em religiões e em pseudociências com o exercício de se ter que acreditar em um amigo que afirma que em sua garagem mora um dragão alado, invisível, que solta fogo pelas ventas e que tem a inconveniente característica de não poder ser detectável ou demonstrável por qualquer método científico conhecido, restando a você a única opção de acreditar (ou não) na palavra de seu amigo. Assim, “dragões em garagens” sempre foi um dos meus tipos de leitura preferidos desde a adolescência e espero conseguir compartilhar alguns deles neste espaço.

Falemos sobre o Início, assim mesmo, com “i” maiúsculo. O surgimento do Universo e da vida ou, na preferência teísta, a Criação. Claro que não vou descrever os processos que levaram ao Início, mas somente tentar mostrar que este tema é um dos mais sujeitos a algum grau de fé, tanto por parte dos teístas – ou crentes – quanto dos céticos. Vamos lá.

Para os crentes a Criação foi obra de um criador além da compreensão humana, onipresente, onipotente, só alcançável pelas lentes da fé religiosa. Para os céticos, o surgimento de tudo adveio dos arranjos de forças naturais que, movidas pelo acaso, originaram, ordenaram e continuam ordenando matéria e energia.

No campo teísta a teoria do design inteligente, apesar de hoje meio desacreditada, ainda exerce fascínio. Diz ela, basicamente, que o Universo foi criado com um propósito: criar vida, especialmente a nossa vida e, para tanto, todos os números que o regem, como sua idade, as medições das forças naturais, os números de partículas, etc, foram milimetricamente ajustados para serem adequados ao nosso surgimento. O Universo seria um grande jardim preparado cuidadosamente para nos receber ou para nos cultivar. Tal concepção enseja uma dedução: um Universo meticulosamente planejado por uma mente superior seria perfeito, simétrico, sem distorções. Um arquiteto ou um engenheiro divino usaria valores exatos, criaria processos e mecanismos perfeitos, sem carência ou excesso. Platão já afirmava que a matemática foi o alfabeto com o qual Deus teria escrito o Universo. Matemática é lógica, é ordem e nesse pensamento platônico reside o fundamento do design inteligente. Uma criação de Deus haveria de ser perfeita desde a concepção. Contudo, a natureza se mostra repleta de assimetrias, de imperfeições. E, apesar de tudo (ou por isso tudo), estamos aqui.

Tomemos, primeiramente, o tempo. Se “tudo” teve um início, começou dentro de uma dimensão chamada tempo, sendo ele mesmo “criado” no Início. A assimetria do tempo é necessária para a origem da matéria. De que assimetria estamos falando? De uma assimetria relacionada a conceitos complicados como inflação cósmica (crescimentos de partes do Universo-bebê, como bolhas) e partículas subatômicas. Somente inflações abruptas e aleatórias nos primeiros microssegundos do Cosmo explicam as diferenças de temperaturas que ferveram as partículas elementais que geraram a matéria. Ou seja, para a física, a aleatoriedade do tempo de crescimento e de temperatura do Universo inicial gerou tudo, inclusive nós.

Os crentes até admitem esse desarranjo, mas pedem atenção ao ajuste fino dos valores numéricos das quatro forças que mantêm o Universo funcionando (nucleares fraca e forte, que mantêm os átomos coesos, o eletromagnetismo e a gravidade). Tais números sugerem terem sido sintonizados para formar um Universo adequado para formar a vida. Por exemplo, se a força gravitacional fosse uma só parte entre 1040 (o número 1 seguido de 40 zeros) vezes mais forte ou fraca, não haveria estrelas como o nosso Sol, com tamanho, expectativa de vida e temperatura adequados a abrigar um planeta habitável. Outro exemplo: a velocidade de crescimento do Universo é a exata necessária para dar tempo de a matéria se aglutinar e formar estrelas e galáxias; fosse mais lenta ou mais rápida, tudo seria somente radiação. Apesar dos inegáveis avanços das ciências, todas as propostas atuais falham em explicar o básico: de onde vieram a energia e a matéria. Mesmo com as elegantes teorias, o mistério não foi unanimemente esclarecido. Nada explica de forma satisfatória como tudo surgiu do nada. A ciência reconhece que o limite temporal até onde ela consegue enxergar o Início é o chamado Tempo de Planck, ou seja, só podemos retroceder até 10-43 segundo após o Big Bang. Isso é bem pouco tempo, impossível para nosso cérebro processar. Conseguimos saber como era o Universo após muito menos de um segundo após a “Criação”. Mas ainda não se sabe nada do que aconteceu entre o momento zero e este primeiro milissegundo. E, muito menos, se sabe o que acontecia “antes” do Big Bang (apesar de não fazer sentido falar em um “antes” do próprio tempo existir).

Este vácuo na ciência oficial leva os céticos a depositar sua “fé” numa esperança de que no futuro tudo seja esclarecido ou que as atuais proposições como as “flutuações quânticas” são suficientes para explicar o Início. Os crentes, por sua vez, se sentem confortáveis em sua fé; tudo foi obra da Palavra de um Grande Arquiteto amoroso que pensou, planejou e executou a construção de Tudo. Cada um, portanto, com seus dragões na garagem.

Vejamos agora duas visões sobre a matéria propriamente dita. No Início o Universo gerou matéria e antimatéria. Em tese, a quantidade de ambas deveria ser idêntica. Para cada próton ser criado um antipróton, por exemplo. Mas se isso ocorresse, os dois se aniquilariam em radiação. Assim, por algum motivo que a física ainda desconhece, foi sendo criada mais matéria que antimatéria, sem qualquer justificativa lógica, e nossa existência se deve a isso. Assim, a assimetria do tempo e o desequilíbrio da matéria são condições para o surgimento da vida. O teísta afirma que isso não pode ser atribuído a um tremendo golpe de sorte, mas a uma vontade superior. O cético rebate, afirmando que prevalece a aleatoriedade; poderia ter sido o contrário, poderia ter sido criada mais antimatéria que matéria ou serem criadas em quantidades iguais, mas não foi, paciência. O acaso “escolheu” uma entre três possibilidades e calhou de ser a que favoreceu nossa existência. Se quisesse prolongar a conversa sobre a matéria, o crente alegaria que os átomos de carbono, elemento base da vida, só são formados no s núcleos das estrelas em colapso por conta de uma ressonância de energia em níveis exatos, e de ocorrência praticamente impossível, sobre os núcleos de hidrogênio.

Também nesse campo a ciência oficial é forçada a admitir que não conhece os mecanismos por trás do surgimento e do arranjo inicial da matéria, admitindo que, por hora, se vê forçada a depositar sua “fé” no acaso e em princípios antrópicos. A visão teísta tampa esse vácuo com a fé no design inteligente de Deus. Até aqui, pode-se admitir que há um embate entre fés.

Passemos da matéria inanimada para a vida. A rigor somos resultado de imperfeição, não da perfeição matemática platônica. A vida é uma ode ao desequilíbrio. Como assim? Para continuar a viver, seres vivos estão constantemente absorvendo nutrientes e energia do ambiente e descartando o que foi degradado. Ou seja, para a vida, equilíbrio é sinônimo de morte. Tem mais. Se a reprodução fosse sempre perfeita, espécies não sofreriam mutações e, portanto, se extinguiriam ao se depararem com as várias mudanças e cataclismos ambientais ao longo dos anos. Uma sequência específica de mutações nas reproduções levou a nossa existência. E o que dizer das óbvias imperfeições nas duplicações celulares que geram, vez por outra, deformidades ou o que dizer de doenças congênitas? Onde estaria a perfeição do design inteligente nesses casos? Estas são as proposições do cético. O crente pontua que as sequências de mutações não foram fruto do acaso mas de Deus que, desejou usar as leis naturais para moldar a vida, especialmente nossa vida. Lembram os teístas que já se calculou que a probalidade de as proteínas iniciais aleatoriamente se juntarem seria de uma chance em 1040.000, ou seja, o número 1 seguido de 40 mil zeros, o que redunda, claramente, em virtual impossibilidade sem uma “ajuda externa”. O cético retruca: dê tempo e material necessário, que cedo ou tarde a “mágica” acontece.

E então?

Sou do time dos céticos moderados, ou dos “duvidadores” simpatizantes da ciência. Minha maior crítica ao design inteligente é que ele parece analisar de dentro pra fora. Já estamos aqui, já existimos. É fácil, então, medir tudo o que nos cerca, obter resultados e concluir que os valores obtidos são os necessários à nossa criação e manutenção. Por exemplo, medimos a temperatura média da Terra e chega-se a 15 graus centígrados, então se conclui que 15 graus é um número divino, intencionalmente ajustado para a Terra nos abrigar confortavelmente. Um baiacu inteligente, se fosse medir a concentração de sal no oceano, poderia pegar o valor obtido e dizer que esse é o número divino para a manutenção dos baiacus no mar e, portanto, o mar foi criado para gerar baiacus. Qualquer ser vivo poderia fazer isso em relação ao seu ambiente. Se eu trabalho numa empresa e sou reconhecido e bem remunerado pelo meu trabalho e vivo feliz e satisfeito, posso concluir que a empresa foi pensada e montada pelo seu fundador unicamente para ME satisfazer? Claro que não. Seria necessária uma gigantesca dose de autoestima e de fé para crer que sim. Seria um dragão realmente enorme.

Contudo impossível não reconhecer que o teísta verá, com algum fundamento, o desígnio de um ser superior que decidiu usar o desequilíbrio de sua obra para nos criar. O cético vê na proposição das ciências, que tudo não passa de arbitrariedade, de causalidade, tendo o Universo surgido do nada a partir de uma flutuação quântica desse mesmo nada. Sob qualquer aspecto nossa existência é um fato raro, resultado de muitas imperfeições do tempo, da matéria e da vida. O que nos torna especiais. Desde cedo somos moldados a crer que a vida e, especialmente, nós, seres humanos, existimos com um propósito definido. Mas será que considerar que estamos aqui por resultado de desequilíbrios aleatórios sem qualquer propósito intrínseco menospreza a Humanidade? Não. Nos torna especiais porque somos raros. De tantos acasos, calhou de surgirmos e sermos capazes de pensar nisso. Vivemos num planeta até agora considerado raro, com condições excepcionais para abrigar vida. Isso é privilégio. Fomos gestados pelo Universo e somos especiais tendo ou não sido planejados por uma Grande Causa.

Ao final e ao cabo a ciência ainda não tem as respostas para como o Universo pode gerar ou projetar a si mesmo. Crer no acaso cego requer uma dose considerável de fé. Crer num Deus arquiteto e engenheiro também requer fé, por óbvio. Ambas as visões requerem crer num dragão na garagem do amigo.

Indicações para aprofundamento

Mostre-me Deus. O que a mensagem do espaço nos diz a respeito de Deus – Fred Heeren. São Paulo: Clio Editora, 2008

Criação Imperfeita. Cosmo, Vida e o Código Oculto da Natureza – Marcelo Gleiser. Rio de Janeiro: Record, 2010

O Mundo ssombrado pelos Demônios. A ciência vista como uma vela no escuro – Carl Sagan, São Paulo: Companhia das Letras, 1996

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