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domingo, Maio 19, 2024

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HIPÁTIA, A PRIMEIRA BRUXA

25 de abril de 2024

HIPÁTIA, A PRIMEIRA BRUXA

Por Marconi Gadelha

Geralmente mexer com dragões é perigoso. Muitos são ariscos, bravios, sensíveis. Seus tutores os cercam de mimos e são igualmente ferozes e ávidos por protegê-los. No Egito do século V uma mulher diferenciada mexeu com alguns dragões. Teve os que ela instigou com vara curta; em outros, mexeu sem que se desse conta disso; noutros dragões ela não tocou, mas os donos deles inventaram que ela os teria também perturbado. Não deu outra: a mulher foi rotulada de perseguidora de dragões, perturbadora de dogmas, ameaça à ordem vigente e, portanto, passível de eliminação, o que, tragicamente, aconteceu.

A VIDA E A OBRA

Aquela mulher era Hipátia. Ela viveu entre 355 (ou 370) e 415, em Alexandria, no Egito. Foi a primeira mulher da história a ensinar e a escrever obras críticas sobre matemática. Era filha do também matemático Théon. Foi criada em um ambiente de ideias e filosofia, sempre sob o incentivo do pai, que lhe transmitiu, além de conhecimentos, a forte paixão pela busca de respostas para o desconhecido. Submetia-se a uma rigorosa disciplina física, para atingir o ideal helênico de ter a mente sã em um corpo são. Há quem afirme que ela formulou (ou participou da formulação) a versão revista e ampliada da obra Os Elementos, de Euclides. Ela lecionou matemática e doutrinas neoplatônicas, tornando-se, por volta de 400, diretora da escola Neoplatônica de Alexandria. Suas aulas atraíam homens ilustres, como políticos, filósofos e religiosos. Através de cartas que recebia de alguns desses homens, sabemos que os estudos Hipátia ajudaram a desenvolver alguns instrumentos usados na Física e na Astronomia, como o astrolábio, uma espécie de calculadora astronômica que foi usada até o século 19, e o hidroscópio, um aparato para medir líquidos. Ficou famosa por ser uma grande solucionadora de problemas. Matemáticos, confusos com algum problema em especial, escreviam-lhe pedindo uma solução. E ela raramente os desapontava. Obcecada pelo processo de demonstração lógica, quando lhe perguntavam por que jamais se casara, respondia que já era casada com a verdade. O historiador grego Sócrates Escolástico concordava que a sabedoria de Hipátia era excepcional, assim como sua habilidade para falar em público: “Obteve tais conhecimentos em literatura e ciência, que sobrepassou muito todos os filósofos de sua época. Explicava os princípios da filosofia aos ouvintes, muitos dos quais vinham de longe para receber sua instrução” ou “Frequentemente, aparecia em público na presença dos magistrados. E não se sentia envergonhada de ir a uma assembleia de homens. Pois, devido à sua extraordinária dignidade e virtude, todos os homens a admiravam”.

A HERESIA

Mas no quê, exatamente, Hipátia foi tão herética? O que fez para merecer ser morta com cacos de telha e ter seu corpo em pedaços ser queimado numa fogueira por uma horda de cristãos raivosos?

Dogmas são como dragões em garagem. Todos os modelos de organização do conhecimento ou das ideias têm os seus. A religião, a política, a ciência… Todos têm algum nível de ideologia, algum dragãozinho em suas garagens, por menor ou mais disfarçado que seja. Todos esses modelos têm seus dogmas, suas verdades imperturbáveis. Hipátia perturbou alguns deles.

Ela ensinava filosofia e matemática. Ou seja, fazia pensar e dizia que o mundo tinha uma lógica além da explicação transcendente da igreja. Era admirada por cristãos proeminentes da época. Apesar disso, parte deles foi induzida a entender que a filosofia neoplatônica e a liberdade com que Hipátia se conduzia pareceram uma influência demasiado pagã. E é aqui que dragões de diferentes raças começaram a se encontrar e a formar alianças para a autopreservação.

É comum se chegar à vala comum da perseguição religiosa como causa da desgraça de Hipátia. Mas outros fatores foram mais determinantes. O destino da mestra tomou rumo tenebroso quando o aspecto político entrou na equação. Como? Ela nutria amizade por Orestes, então prefeito da cidade, o qual frequentemente dela obtinha conselhos. Tal amizade ajudou a reforçar preconceitos, especialmente porque calhou de Orestes ser inimigo político de Cirilo, justamente o patriarca da cidade (espécie de “bispo”, chefe da igreja local), um cristão fervoroso, que passou a vida defendendo a ortodoxia da Igreja e combatendo com rigor – por muitas vezes excessivo –as heresias (foi canonizado por isso).

Contextualizando o poder de Cirilo, vale ressaltar que o reinado do imperador romano Teodósio I (379–395) marca o auge de um processo de transformação do cristianismo, que efetivamente se torna a religião oficial do Estado. E, se existe uma constante na história das religiões, é o fato de que, uma vez dotada de poder, logo a nova crença inicia a perseguição ou dificulta a vida de quem professe fé diferente. Com o cristianismo não foi diferente. Em 391, atendendo a pedido do então patriarca de Alexandria, Teófilo, o imperador autorizou a destruição do Templo de Serápis, um vasto santuário “pagão” onde seriam oferecidos sacrifícios de sangue. Surtos de violência popular entre cristãos e pagãos tornaram-se cada vez mais frequentes em Alexandria, principalmente após a ascensão de Cirilo ao Patriarcado.

Nesse caldeirão efervescente o prefeito Orestes mostrava-se um cristão tolerante com outros grupos religiosos, bem diferente de Cirilo, cuja uma das primeiras medidas que tomou após assumir o Patriarcado foi pôr fim em um grupo cristão que considerava herege. Mas, enquanto Orestes era cristão, Hipátia era uma mulher pagã. Assim, acredita-se que correram rumores de que ela seria uma influência maligna para Orestes, impedindo que ele se convertesse em um “verdadeiro cristão”, como era Cirilo

Além do mais, Hipátia compartilhava com Orestes a ideia de que a autoridade do bispo não deveria se estender a setores da administração municipal. Fala-se, inclusive, que os conhecimentos astronômicos de Hipátia podem ter acabado agravando ainda mais a situação. Isso porque as observações astronômicas eram fundamentais para se decidir a data da Semana Santa. E, conjectura-se, os cálculos de Hipátia teriam assinalado uma data distinta da que havia sido anunciada por Cirilo, o que pôs a autoridade do bispo em xeque. Heresia suprema, pois, afinal, somente os religiosos cristãos seriam os autorizados por Deus a dizer como andariam as coisas do céu.

Segundo o historiador Sócrates Escolástico, Orestes ordenou, por algum motivo, a execução de um monge cristão chamado Amónio, ato que enfureceu ainda mais o bispo Cirilo e seus correligionários. Os dois acabaram travando uma batalha por Alexandria. Uma luta por poder político. E é este o contexto do assassinato de Hipátia. Devido à influência política que ela exercia sobre o prefeito, é bastante provável que os fiéis de Cirilo a tivessem escolhido como uma espécie de alvo de retaliação para vingar a morte do monge. Mas isto teria sido somente o desfecho de uma sequência de perseguições pessoais, infâmias e falsas acusações.

O filósofo Damáscio relata que Cirilo e seus partidários perceberam a influência de Hipátia fora de Alexandria, também invejavam sua boa relação com a aristocracia e chegaram à conclusão de que ela seria uma ameaça. Um grupo de apoiadores de Cirilo encontra uma maneira de se livrar dela e manchar sua reputação: divulgam entre as classes mais baixas (com quem ela não tinha muita afinidade) que estaria envolvida com feitiçaria e, mais especificamente, magia negra, uma baita heresia. 

O MARTÍRIO

O rumor se espalhou rapidamente e a hostilidade crescente culminou com o martírio de Hipátia. Um grupo de parabolanos, cristãos de classe baixa dedicados a serviços voluntários e à segurança do bispo, decide matar a filósofa. Em março de 415, quando Hipátia retornava para casa, uma multidão de cristãos enfurecidos a arrastou para fora da carruagem e a levou para a igreja de Cesarium, um antigo templo do imperador. Lá, arrancaram suas roupas e a despedaçaram com fragmentos de cerâmica. Depois disso, levaram seu corpo para ser queimado em uma pira, numa simulação grotesca de um sacrifício animal para um deus pagão.

AS MOTIVAÇÕES

A eventual relação direta de Cirilo com o ocorrido continua a dividir os historiadores. Sócrates Escolástico e o famoso historiador Edward Gibbon não mencionam qualquer envolvimento direto do patriarca.  Damáscio, por sua vez, atribui explicitamente o assassinato ao patriarca, que invejaria Hipátia. Contudo, Damáscio escreveu cerca de um século depois dos fatos e os seus escritos manifestam um certo pendor anticristão, o que compromete sua imparcialidade na narrativa. 

De toda sorte, o que se observa? Apesar da motivação quase óbvia, o principal dragão molestado por Hipátia não foi o ligado a dogmas religiosos. Foi o alimentado dentro dos cercados da política. Havia um prefeito e um bispo em conflito por poder político. Assim, Hipátia não foi vítima (somente) de uma nova religião, fanática e voraz. A ideia comum em muitos relatos da história da mestra é o de que ela foi condenada à morte por seu ateísmo, mas esta informação não se encontra em nenhuma das fontes antigas. Também é provavelmente falsa a associação de que o estudo e aprendizado eram considerados coisas de pagãos.  Os neoplatônicos – como Hipátia – eram próximos de uma visão monoteísta do mundo, por isso foram incorporados pelos primeiros teólogos judeus, que integraram os ensinamentos neoplatônicos à religião cristã.  A política foi a afronta principal e a ela juntaram-se duas outras motivações; dois outros dragões se sentiram ameaçados e partiram para o ataque à professora.

Um desses dragões foi, de fato, o domesticado pela religião. Mesmo o crime tendo viés eminentemente político, o envolvimento do bispo Cirilo – pelo menos como instigador – não pode ser refutado, dado seu histórico de mão pesada contra quem lhe questionasse e sua ferrenha busca por poder político em Alexandria. É inegável que o aspecto religioso teve papel importante no ocorrido. Insuflados pela disputa política entre partidários de Orestes e partidários de Cirilo, grupos cristãos entraram no jogo e sujaram as mãos de sangue, vitimando aquela que a eles representava o vilipêndio de sua fé e o poder da heresia. Retorne-se, por exemplo, as acusações de bruxaria, de impedir a total conversão de Orestes e a de esclarecimentos dos movimentos dos corpos celestes, contrariando as interpretações da igreja sobre o tema. Todos argumentos de teor religioso, sem dúvidas. Tudo se configura para que o homicídio de Hipátia tenha resultado do conflito entre duas facções cristãs: uma mais moderada, ao lado de Orestes, e outra mais rígida, seguidora de Cirilo, responsável pelo ataque. Hipátia foi martirizada por religiosos, isso é inegável; mas não totalmente por motivação religiosa; a motivação originária foi política, sendo secundária a motivação religiosa. A religião foi usada para fins políticos e a política usada para fins religiosos. A promiscuidade entre política e religião é muito antiga… Ambas acorrentam e adestram seus dragões juntos, de maneira a torná-los amigos e mutuamente mansos, apesar de ferozes contra qualquer inimigo em comum.

Bem, qual seria, então, o terceiro dragão em garagem envolvido no martírio de Hipátia? Um bem conhecido: o da ideologia da superioridade masculina. A misoginia pode ter desempenhado papel relevante no encadear de fatos que resultaram na morte da mestra. Com a ascensão do cristianismo, as mulheres, que anteriormente eram relativamente livres, foram condenadas ao silêncio. Assim, a perseguição contra Hipátia pode ter vindo, em grande parte, da tendência antifeminina, supersticiosa. Teria sido, só mais uma razão para calar uma mulher insolente que ousava dar opiniões nos rumos da política e – heresia terrível – até nos assuntos do céu. Um homem pagão fazendo isso já seria uma afronta; uma mulher pagã, então, só poderia ser orientada diretamente pelo diabo. Ela pode ser incluída no rol das bruxas queimadas pela igreja, quiçá a primeira. Há aqueles que acreditam que seu assassinato concluiu um período em que as mulheres desfrutavam de oportunidades intelectuais e influência política que não estariam disponíveis novamente até os tempos modernos.

Portanto, a maior heresia de Hipátia foi ter sido independente, inteligente e influente no meio político e, por tabela, no meio religioso do contexto da época e do lugar. Dessa maneira, ela mexeu com três espécies de dogmas, três raças de dragões: o dragão político – o do poder absoluto, sagrado, imutável, do “certo”, justo e correto; o dragão religioso – o da interpretação exclusiva das escrituras sagradas, da inerrância da igreja, da satanização da religião alheia ou do ateísmo, o do obstáculo à real conversão cristã; e o dragão ideológico – o de gênero, o da inferioridade feminina. O dragão político preponderou na liderança da reação; os outros dois o seguiram como ao chefe da matilha.

Os adestradores e donos desses dragões – os conchavos políticos, a igreja e a mentalidade da época – lutaram para mantê-los vivos. Eles viram Hipátia como uma caçadora de dragões, logo como inimiga.

Indicações para aprofundamento

Dicionário de Biografias Científicas – Volume II. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2007.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Hip%C3%A1tia
https://web.archive.org/web/20131004213347/http://cosmopolis.com/alexandria/hypatia-bio-socrates.html
https://www.bbc.com/portuguese/geral-46501897
https://www.revistaquestaodeciencia.com.br/artigo/2019/04/25/tres-faces-de-hipatia-de-alexandria

Filme ÁGORA (ou ALEXANDRIA). Direção de Alejandro Amenábar. Produção de Fernando Bovaira. Espanha: Mod Producciones, 2009. 127 min.

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